Thesaurus essencial – uso em sala de aula

janeiro 24th, 2017Notícias1 Comment »

Ganhei o Thesaurus essencial (dicionário analógico) uma versão do ‘essencial’ do consagrado Dicionário analógico da língua portuguesa. Pus-me logo a consultá-lo como que o testando para aferir sua utilidade com vista a consultas mais rápidas no meu labor constante de construir textos escritos. Ficou plenamente aprovado. Por ser o ‘essencial’ é de muito mais fácil manuseio.

Passei, em seguida, a me indagar como professor de linguagem, sempre preocupado com tornar o ensino de Português mais produtivo, tentando contribuir para a formação de leitores e de produtores textuais competentes: qual, em termos práticos, a utilidade deste Thesaurus, ou Dicionário Analógico, para o ensino da língua? Julgo que muitos colegas professores não conheçam ainda esta obra e que, vindo a conhecê-la, não saberão a que se propõe e, assim, ignorarão a sua extrema validade para a prática da produção escrita. E não só para os professores, mas para todos os que lidam mais diretamente com a linguagem, como jornalistas, advogados, ensaístas. Tentarei mostrar tal utilidade me concentrando no ambiente escolar.

Um dicionário, no seu sentido mais corrente, sabemos, é obra que objetiva documentar e fornecer os significados das palavras de uma língua, que constituem o léxico desta língua, apresentadas em ordem alfabética. Não pode, evidentemente, prescindir dele todo cidadão que exercite, de algum modo, a linguagem verbal. Já um dicionário analógico tem finalidade distinta e, diria, complementar: não mais saber o que uma palavra significa, mas saber que palavras a ela se relacionam, analogicamente, através de seus significados, em uma área semântica, pois, comum, em torno de uma ideia central afim. O aluno saberá, por exemplo, qual o significado de “modéstia”, o que lhe permite empregá-la, mas, certamente, não terá o domínio da língua para elencar várias palavras com que ela pode ser agrupadas numa certa área de analogia, sustentada por proximidade significativa. O Dicionário Analógico, na sua versão essencial, no verbete de entrada, digamos “modéstia”, fornecerá estas palavras, já não mais em ordem alfabética, mas por algum traço, mais ou menos evidente, de similitude. Recorrendo ao Thesaurus Essencial, da Lexikon, temos para a palavra “modéstia”: como substantivos, simplicidade, moderação, comedimento, humildade, timidez, acanhamento, vergonha, singeleza, reserva, retraimento, desambição, contenção, entre outros; como verbos, cujo uso um enunciado pode requerer, envergonhar-se, acanhar-se, ser modesto; e como adjetivos, que também podem ter o seu emprego solicitado pela sintaxe da frase, modesto, humilde, tímido, encolhido, comedido, contido, envergonhado, acanhado, recatado, retraído, entre vários outros.

Só com esta consulta ao verbete “modéstia”, fácil é se constatar a utilidade deste Dicionário. Primeiro, o aluno começará a ter recursos lexicais para evitar ficar repetindo uma palavra (problema muito frequente nas produções escritas dos educandos), procurando no rol de palavras análogas qual a que mais adequadamente, dentro do contexto do seu texto, será a selecionada por ele. Por exemplo, numa frase, retirada de certo contexto maior, como “Embora o seu saber jurídico sobressaísse dos demais ministros, a modéstia dele encantava a todos”, não há como empregar certos substantivos elencados para substituir, na sequência deste texto, “modéstia”. Qual parece ser o mais indicado neste caso? Outras indagações serão oportunas, se o professor quiser se deter (numa atividade muito útil para o exercício da linguagem!) nos substantivos análogos. Assim: por que os substantivos “moderação” ou “timidez” ou “retraimento” não seriam de uso pertinente neste exemplo?

Mas uma contribuição de maior alcance deste Dicionário para o ensino da produção textual, levando-se em conta a realidade idiomática recorrente nos textos escolares e, acrescentaria, certa característica geral do falar e do escrever dos nossos dias, mesmo por falantes de boa escolaridade, estaria no tentar evitar a utilização de palavras genéricas (substantivos e verbos sobretudo), com o que vão rareando, na prática linguística do dia a dia, substantivos e verbos específicos, adjetivos também. Os falantes mais atentos percebem que o verbo “colocar”, por exemplo, vai tendo o seu significado completado por inúmeros nomes. Tornou-se um verbo altamente genérico, por isso mesmo empobrecedor da expressão verbal. Aqui deve prevalecer a atenção do professor de estimular o aluno na procura do verbo substituto mais adequado, de uso mais preciso, em cada combinação com um nome que lhe serve de complemento. Para esta procura no Dicionário Analógico, imprescindível se faz a leitura do “Como usar” tal Dicionário, em duas páginas constantes no início da obra. Uma vez orientado, o aluno recorrerá ao índice no final do livro, onde as palavras vêm em ordem alfabética. Os verbetes selecionados, em negrito, que constam da parte inicial, são sempre encabeçados por um substantivo, vindo após substantivos análogos, verbos análogos e adjetivos análogos. Por se tratar de um verbo, é no índice final que o aluno encontrará os verbos. Lá aparece “colocar”, relacionado a cinco áreas de ideias afins, representadas cada uma por um substantivo análogo (arranjo, comissão, localização, reunião, venda), dada a multiplicidade de significados básicos que este verbo comporta, por isso mesmo se prestar a emprego genérico. Estes cinco substantivos é que devem ser, então, consultados como os verbetes onde, na relação dos verbos análogos, se processará a seleção daquele mais adequado a cada construção sintático-semântica do verbo “colocar” com o nome que funciona como seu complemento.

“Colocar o dinheiro no banco”, “Colocar a mão no balde com água quente”, ”Colocar a chave na fechadura”, “Colocar as mercadorias na vitrine”, “Colocar os móveis na sala”, “Colocar a escada no muro”, “Colocar uma faixa no quadril”… E os empregos de “colocar”, como verbo genérico, poderiam ir se multiplicando, na combinação com os mais diferentes nomes. Não se trata, fique claro, de “erro” ao se utilizar, genericamente, de um verbo como “colocar”. Apenas, a expressão linguística peca em precisão, em adequação, em suma, se torna reveladora de uma pessoa que tem seus recursos idiomáticos, no caso lexicais, bem limitados, particularmente na produção de textos escritos. Com “Depositar o dinheiro no banco”, “Imergir a mão no balde com água quente”, “Introduzir a chave na fechadura”, “Expor as mercadorias na vitrine”, “Dispor os móveis na sala”, “Encostar a escada no muro”, “Passar uma faixa no quadril”, já contamos, sem dúvida, com combinações lexicais mais precisas, que atestam um domínio da língua muito mais eficaz, a comprovar um bom grau de escolaridade.

O quotidiano da sala de aula irá mostrando ao professor a extrema valia de um dicionário analógico essencial como este, particularmente nas atividades de produção textual. Afinal, o estudo gramatical não deve ficar limitado à fixação de regras, que valoriza mais a forma do que o conteúdo linguístico. Linguagem é, antes de mais nada, significação, embora veiculada por uma forma. Evitar a repetição de palavras e escolher palavras mais precisas, adequadas, no jogo combinatório sempre presente na sequenciação frasal, são preocupações semânticas que não podem ser negligenciadas por um professor de Português, como de qualquer língua, no seu objetivo básico de contribuir para a formação de produtores textuais proficientes. Este dicionário analógico essencial se apresenta, pois, como um instrumento pedagógico imprescindível para uma ação docente que se almeja produtiva. Ao lado dele, devem, professores e alunos, contar com uma gramática essencial e com um dicionário escolar, além, evidentemente, de textos de diferentes gêneros para o ensino, bem orientado, da leitura, não frequente em nossos manuais didáticos.

Carlos Eduardo Falcão Uchôa

 

1 Comentário

  1. EDSON RIBAS MALACHINI disse:

    Ótimo texto, mostrando, com exemplos, a utilidade de um dicionário analógico ou “thesaurus”. Linguagem precisa e elegante.